Memórias Emergentes - Um texto para pensar "O Agente Secreto" (Kleber Mendonça Filho, 2025).
O Agente Secreto é também um filme sobre a ditadura militar. Diferente de boa parte do cinema voltado a esse tema, Kleber Mendonça Filho se liberta da narrativa exclusivamente didática do contexto político e alcança um grau de maturidade que há tempos se esperava do cinema brasileiro sobre as ditaduras do contexto da Guerra Fria — algo que outros países latino-americanos já vinham experimentando.
A fórmula do novo longa de Mendonça Filho é uma mistura heterogênea de muitos elementos que se convertem em “agentes secretos”, a depender do público e atenção dispensada. Entre eles estão referências locais, como a lenda urbana da Perna Cabeluda e o crime atemporal do caso Sarí Corte Real. Esses ingredientes podem passar despercebidos tanto pelo público estrangeiro quanto pelos brasileiros menos atentos — ou mais concentrados na poderosa estética visual e sonora, capaz de conquistar o mundo. Afinal, nem só de referências regionais se faz um agente secreto: o público nacional e internacional também é convidado a participar das piadas internas do filme. E o personagem Marcelo — não tem ele um rosto familiar, de policial?
Como historiadora, percebo o olhar preciso do diretor sobre a carência de memória, de história e de documentação — e isso muito antes mesmo de chegar à ditadura. Mendonça Filho evidencia que, antes dos desaparecidos políticos, houve o apagamento étnico e de classe, sobretudo de mulheres indígenas e negras, quase sempre na linha de frente e, por isso, as primeiras a morrer ou desaparecer. Mas há também as que escapam, resistem e reclamam a morte de seus filhos. Há as mulheres brancas de poucos e muitos privilégios, a exemplo de Dona Sebastiana e Elza, tecedoras dos destinos de tantos personagens, cada uma à sua maneira. Elas integram uma encruzilhada — no sentido mais feminino da palavra — que atravessa o protagonista Armando. Seus vários caminhos se multiplicam ao encontrar Cláudia, enquanto se empenha na busca por uma mãe e na honra da memória de uma esposa. Entre Aparecida e Fátima, o filme insinua um espaço de devoção e uma trama de origens coloniais.
A busca de Armando torna-se herança: um neto procura uma avó mais do que um pai. O filme deixa claro que o tempo da assimilação das histórias familiares não é o mesmo da pesquisa histórica — a informação não basta, é preciso tempo. Cada um tem o seu, e essa individualidade pode causar estranhamento àqueles que acreditaram e lutaram por um projeto coletivo de um novo Brasil. Essa subjetividade é também um desafio num país em que o papel duplo de avô e pai é tão tipicamente brasileiro que tem até hino — um “avôhai”. No longa-metragem, esse papel é assumido por seu Alexandre, guardião do neto e da sala de projeção. O Agente Secreto, nesse sentido, presta contribuição à memória ao humanizá-la e preservá-la, selecionando o que vai à sétima arte, pois nem tudo vira cena: mantém-se viva e vitoriosa uma trajetória, reservando grandes quedas “apenas” para a História e para as fontes que a alimentam.
O didatismo não predomina, mas o compromisso com História factual é notável ao evidenciar o período repressivo do governo Geisel — tantas vezes descrito, de forma equivocada, como uma “fase branda” do regime. O filme mostra, de dentro, a resistência nas universidades e seus limites, e avança para a autoridade e o autoritarismo das empresas e empresários numa ditadura que ajudaram a cocriar. A truculência e a perversidade do Estado Paralelo aparecem na figura das forças paramilitares, não bastasse a violência das oficiais. Misérias catalisadas por um Brasil distante dos milagres, estruturalmente precário, onde corpos persistem no solo ou emergem, literal e simbolicamente, das entranhas do mar — algo que brasileiras e brasileiros já conhecem de tantos carnavais. Essas misérias se conectam a outras do mundo, nas cicatrizes que vêm da Alemanha, no medo que gera a cautela trazida de Angola. O passado recente da colônia matiza o esquecimento dos brasileiros, não menos colonizados, mas distanciados desse passado — talvez por isso tão relapsos com suas identidades.
Nas voltas ao mundo que o filme dá, Mendonça Filho leva enfim a Cannes, na companhia de Waldick Soriano e Angela Maria, a canção “Guerra e pace, pollo e brace”, de Ennio Morricone — que deveria ter chegado ao festival com outro longa em 1968, mas cuja edição foi suspensa em protesto contra os ataques à cultura na França à época. E, como já não era sem tempo, O Agente Secreto não se furta a mais um protesto — por outro desaparecido: o próprio cinema, esse espaço-sujeito, protagonista recorrente na obra do diretor. Num banco de sangue jazem os tubarões de Spielberg, mas restam ainda os da não ficção, de uma Recife que emerge. A imagem da Perna na boca do tubarão é uma invocação aos corpos de desaparecidos políticos que nunca foram identificados; é também um tratado sobre uma cidade que engole e devolve memórias e mitos, e nos faz pensar que um pode conter algo do outro — assim como passado, presente e futuro se experimentam mutuamente, numa simbiose protagonizada por Armando, Marcelo e Fernando.